Como fica o mercado do petróleo pós-covid?
- Prof. Edmar de Almeida
- 3 de jun. de 2020
- 4 min de leitura
Prof. Edmar de Almeida e Francisco Raeder
O mercado brasileiro de petróleo começou o ano com expectativas de retomada dos investimentos em exploração e produção (E&P) no país, mas a crise sanitária a partir de fevereiro representou frustrou as expectativas. A forte queda nos preços do petróleo e um cenário lower for longer cada vez mais provável implicam a necessidade de fortes ajustes nas estratégias de investimento das principais empresas mundiais de petróleo e da Petrobras. Esses ajustes podem levar a uma redução no ritmo dos projetos em andamento e levantar dúvida sobre o sancionamento de muitos empreendimentos de custos mais elevados. Ou seja, o cenário de lower for longer descortina grandes desafios para o segmento de E&P.
A Petrobras, principal investidora no segmento de E&P brasileiro, foi diretamente afetada pela queda nos preços e pela redução da demanda de derivados no país. As vendas de gasolina e diesel caíram 28,5% e 14%, respectivamente, no mês de abril, em relação ao mesmo mês de 2019. O caso do querosene de aviação foi ainda mais negativo, com as vendas despencando 84,73%.
Em contrapartida, as exportações de óleo bruto e derivados se revelaram uma surpresa positiva. A Petrobras bateu recorde de exportação de petróleo no mês de abril, quando exportou 1 milhão de barris por dia (o recorde anterior, de dezembro de 2019, era de 771 mil barris exportados diariamente). A empresa está direcionando seus esforços para a exportação devido à contração da demanda interna. O principal comprador é a China, que foi responsável por 60% das vendas de petróleo exportado. Isso se deve ao fato de a economia chinesa já demonstrar sinais de recuperação após a violenta contração ocasionada pela covid-19.
Esse esforço em direcionar as exportações para o mercado externo é especialmente benéfico à Petrobras, principalmente em relação às suas finanças. A medida consiste em um importante reforço de caixa para a empresa em um momento crítico. Vale ressaltar que a receita decorrente das exportações é em dólar e, de janeiro a abril de 2020, a moeda americana se valorizou em torno de 35% frente ao real.
Embora o aumento das exportações tenha sido bastante positivo, a Petrobras reportou prejuízo de R$ 48,5 bilhões no 1º trimestre de 2020. O resultado foi fortemente impactado pela revisão das premissas de longo prazo para o Brent, que levou ao impairment de ativos no valor de R$ 65,3 bilhões. Ou seja, o cenário de preços baixos já afetou fortemente o balanço da Petrobras. Da mesma forma, os investimentos foram reduzidos para preservar caixa.
Caso o cenário de lower for longer se confirme, a indústria mundial de petróleo não será a mesma de antes da covid-19. Empresas e geografias com custos elevados simplesmente não terão sustentabilidade econômica e entrarão em declínio. Em um mundo em transição energética, onde as fontes renováveis de energia apresentam forte capacidade de inovação e dinamismo econômico, será muito difícil convencer investidores a colocarem seus recursos escassos em petróleo de viabilidade econômica duvidosa.
Além disso, as empresas de petróleo tenderão a ser muito mais seletivas nos projetos petrolíferos. Diante disso, a pergunta que fica para as autoridades energéticas brasileiras é: como afastar dúvidas sobre a viabilidade econômica no nosso upstream?
Os resultados dos leilões, em particular do leilão da Cessão Onerosa, representam um sinal amarelo para o Brasil. A fraca demanda por ativos nas licitações, mesmo com preços de petróleo atrativos, significa que existem dúvidas sobre a competitividade do E&P no Brasil, considerando-se as regras contratuais e o nível atual de participações governamentais. Conclui-se, assim, que é fundamental adaptar nosso arcabouço regulatório para o contexto atual da indústria.
As empresas que já têm ativos no Brasil também podem contribuir para afastar dúvidas sobre a viabilidade de seus ativos. Para isso, é importante uma estratégia de inovação agressiva, aproveitando-se o ecossistema de inovação brasileiro. As cláusulas de P&D permitiram o desenvolvimento de um grande ecossistema de inovação, envolvendo fornecedores, universidades e start-ups tecnológicas. A adaptação ao contexto de lower for longer requer a manutenção do esforço inovativo, a despeito da maior restrição financeira atual. Ressalte-se que outras geografias que concorrem com o Brasil, como o shale oil americano, usarão a inovação como principal estratégia de adaptação, tal como já fizeram na crise do petróleo de 2014. Assim, a desarticulação das redes de inovação como forma de ajuste de curto prazo pode ser uma estratégia comprometedora para a atratividade do E&P brasileiro.
Apesar da reabertura da economia em muitos países, a crise sanitária da covid-19 está apenas no início. Muitos meses serão necessários para que uma vacina esteja disponível a toda a população mundial, e, enquanto não se encontrar um tratamento seguro para o novo coronavírus, as restrições sanitárias continuarão a impactar o mercado de petróleo mundial. Nesse sentido, ainda é cedo para vislumbrar todos os impactos da crise sanitária sobre o negócio do petróleo no mundo e no Brasil. No entanto, já podemos dizer que se trata de um impacto disruptivo, com transformações que irão gerar países/empresas ganhadores e perdedores.
Assim, as empresas posicionadas no Brasil e as autoridades energéticas precisam trabalhar rapidamente e de forma determinada para que o E&P brasileiro não se posicione no lado dos perdedores.
Este artigo foi publicado na revista petróleo hoje no dia 03 de junho de 2019
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