O Gás Natural no Contexto da Aceleração da Transição Energética
- Prof. Edmar de Almeida
- 30 de out. de 2020
- 3 min de leitura
Prof. Edmar de Almeida
Um dos impactos importantes da Pandemia do Covid-19 é seu efeito na conscientização e engajamento ambiental da opinião pública. A ideia de que a mudança climática e a redução da biodiversidade podem gerar novas pandemias vem ganhando espaço, o que tem provocado uma aceitação cada vez maior do conceito de urgência ambiental e climática.
Como consequência deste processo, importantes stakeholders do setor energético mundial vem se alinhando com a perspectiva de uma transição energética acelerada. Na última década, a difusão do gás natural em substituição do carvão no setor elétrico nos Estados Unidos e na Ásia foi uma das principais formas de redução das emissões nestes países. Por isto, o gás passou a ser apontado como uma ponte para a transição energética, permitindo uma transição mais ordenada e com segurança energética.
Entretanto, muitos especialistas começaram a questionar os cenários que apontam o gás natural combustível da transição. A ideia da transição direta, com a substituição inclusive do gás natural por eletricidade, hidrogênio e biogás vem se difundindo e ganhando adeptos, principalmente na Europa.
Neste contexto, é interessante analisar o primeiro grande exercício de cenários de longo prazo que se tornou público após a pandemia, apresentado pela petroleira BP. A BP apresentou uma visão de longo prazo que buscou integrar a mudança da sua visão estratégica, que passou a buscar uma descarbonização total das suas atividades no horizonte 2050. Três cenários foram apresentados: i) o cenário Business as Usual que aponta a demanda e oferta de energia se não houver mudança significativa nas políticas energéticas atuais; ii) o cenário Rapid Transition considera a implementação de medidas para promover uma redução de emissões de 70% até 2050; iii) por fim, o cenário Net Zero considera a introdução de medidas para alcançar uma redução em 95% das emissões em 2050.
Interessante notar que a demanda de gás natural em 2050 só cairia em relação aos níveis atuais no cenário Net Zero. Mesmo assim, a queda da demanda de gás seria de cerca de 33% em relação aos patamares atuais. Além da queda do uso do gás no setor elétrico, o cenário Net Zero considera uma penetração importante do hidrogênio em substituição do gás no setor industrial. Entretanto, mesmo em um cenário de extrema ambição ambiental, a indústria do gás teria um papel relevante no mix energético mundial em 2050 (cerca de 13%).
A resiliência do gás natural no contexto da aceleração da transição nos leva a concluir que o Brasil precisa persistir na sua política de desenvolvimento da indústria do gás. O país ainda tem muito a se beneficiar de uma política que promova aumento do uso de gás natural na indústria e no transporte, através de uma oferta mais competitiva de gás natural. Existe um grande espaço não apenas para substituição de combustíveis fósseis por gás na indústria e no setor de transporte, mas também para aumento da demanda industrial através de novos projetos alavancados pela competitivide do gás.
O Brasil deve se valer do fato de ter uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, contando com cerca de 46% de combustíveis renováveis. Como o gás representa apenas cerca de 12% da matriz energética nacional, é possível promover o crescimento econômico nacional, ao mesmo tempo em que se promove o aumento da participação do gás natural e das renováveis na matriz energética.
Artigo publicado na Revista da Aspacer na edição de setembro/outubro de 2020 https://pt.calameo.com/read/00007168004091a538af7

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